Falo de mais. Falo do que não é suposto falar, falo de sofrimento enquanto me rio do meu desalento. E se estou contente distribuo carinho por aí, sorrio só para mim, e não falo, não preciso já que nunca me calo.

Primeiro há a sensação de bem-estar, um apreciar do “estar”. E se me perguntarem “porquê?” não saberei responder.

Depois vem o esgar de deleite e o acomodar ao corpo. O movimento desprende-se na falta dele e a pele se ressente de durante tanto tempo construir nó a partir de nervo.

Daí vem aquela terceira sensação de liberdade. A vida parece grande achado e o tempo demasiado. Não há caminho mas chão, piso flutuante em equilíbrio. E escolhe-se a direcção de olho fechado e coração recheado de renovada pulsação.

Há aquele desejo de grandeza que teima em fincar pé. Acha-se que ser único nos leva ao topo. Que topo? Os edifícios são hoje mais altos para suportar mais gente não para a elevar. E as igrejas que antigamente se erguiam para nos aproximar do céu, se esvaziando estão. A fé em algo se ressente. Crente não vejo algum ao invés da comum gente mentalmente ausente.

No final do dia me deito abraçando uma cama vazia de partilha e cheia de mim. Por vezes sufoca, me afogo, submergindo em memória fluída demasiado densa, demasiado coerente.

Demasiado aberta, demasiado dada, demasiado integrada numa sociedade regrada e selectiva que foge à necessidade gritante de humanidade pelo caminho das ideias cujo conceito não sei digerir… ainda.