Faço trinta por uma linha para escrever umas quantas palavras. Cerveja fresca no frigorífico. Corri para ela. E para quê? Nada mais me deu que azia. Devia dar-me para o desequilíbrio mas o estômago venceu a minha força de vontade. Ou de espírito, que a vontade é parca. Até diria nula mas não quero ser hipócrita.

O caixote do lixo está vazio. Caramba, devia estar cheio. Nem que fosse para me impressionar com o esforço despendido no acto. Mentira. Se há coisa que não sou é escritor. Traumas afundam-se nas memórias e as alegrias preservam-se em fotografias. Se não as há, paciência, também não é por isso que voltam. Quando muito revoltam-se na intemporal tumba que as restringe à pura clausura. Depois de pó, engalfinham-se nos poros do solo onde jazem e aí, sim, lá dão de vez a vez sinal de si. Quase por revolta um “Eu existi, hein? Não se esqueçam de mim!”. E pronto… Assim se foram no fogo cruzado.

Nunca pensaram porque dizem que devemos ter os pés no chão? Eu tenho uma teoria (tenho muitas até que, para este caso, não são importantes). O chão, mistela de tudo, é mensageiro de fados e fortunas, o emissor por assim dizer, os nossos pés o canal, o cérebro (porque coração é coisa de romântico inveterado) o receptor. Quando tocamos em pó, alegria outrora, há uma ínfima transmissão dessa sensação de contentamento, não de júbilo, não de regozijo, de contentamento apenas. E não um contentamento qualquer: um contentamento nostálgico atenção. E aí!, qual molduras qual quê. A fotografia ganhou vida. Nada de braços nem perninhas, vida apenas. Quem vive não precisa de ter braços nem pernas para isso. Ajuda na concretização de sonhos de independência entre outros mas não ajuda em mais nada. De braços e pernas estão cheios os que cabeça não têm também.

Nada estranho já, e é estranho aperceber-me disso. As pessoas não são mais que cacos e não me venham dizer que o mundo era o copo, tretas. Nem o jarro quanto mais. O mundo não tem culpa. Para ser verdadeiro, nem eu sei quem ou o que é o copo ou o jarro. Quando nasci já só haviam cacos. Eu próprio sou caco e admito, já houve momentos em que me senti menos caco. A solução é escrever! – Diz a psicóloga. Soltar tudo cá para fora! De psicólogos está cheio o mundo. Foi assim que destruí a minha casa. Não a casa casa, os móveis. Ataques de raiva, acontece. E uma palavra na parede (não tinha papel): Absurdo. Haverá algo mais absurdo que isto? Não. Tudo é absurdo. Se tudo é absurdo, nada é absurdo. Tudo é simplesmente tudo. E eu preciso de significâncias e hierarquias pois deste jeito os meus objectivos perdem todo o seu sentido.

E, nisto, quero dizer em voz alta (para que eu ouça, não as paredes absurdas) que estes devaneios são, na sua íntegra, culpa do licor, mais especificamente do licor de ginja, ginginha, amiguinha do coração. Amanhã iludo outra vez a consciência e voilá, sou um outsider de mim mesmo. Ainda não tenho aquele espírito que Camus tanto aplaude. Aquele capaz de evitar o suicídio. Ai, eu bem gostava… Contudo espero o dia dos finados como quem espera o primeiro beijo. Sou curioso. Bem mais do que devo, com coisas que me dizem não devo. Estou a pensar até deixar de ouvir. Dizem que se furar os ouvidos é mais fácil.