Um humilde é quase sempre o mais desapercebido dos excêntricos.

Para uns um brilho no olhar, para outros um sorriso mais fechado, um olhar mais aberto, um trejeito de quem vive no mundo da lua. Apenas algo pequeno e vulgar que se destaca sem porquê, ou assim se nos dá a entender.

Namoremos a calma, a quietação e falemos de consciência. Consciência daquela pontada no peito, daquela comichão no braço, daquela dormência nas pernas… Atentemos na percepção de nós mesmos enquanto portadores de massa e energia. Cuidemos nas mudanças que operamos apenas devido à ocupação de espaço. A trajectória de uma gota de chuva muda. A trajectória de um transeunte muda. Cresce a saudade no coração daqueles a quem somos queridos. Alguém é atolado em trabalho, incumbido de produzir o que não produzimos. Só porque estamos ali: ali parados no meio da rua, ali fechados no quarto, ali quedos em frente a uma secretária fitando o nada. Afinal somos poderosos, na medida em que operamos mudanças, em que somos uma variável e não uma constante. Forçamo-nos a atingir e ao mesmo tempo exceder os nossos limites porque é o que outros fazem e o que é suposto fazermos se não queremos ficar para trás. Por vezes atingimos a excelência de sermos autómatos dada a tão magnificente eficiência alcançada na prossecução de tal propósito. Ora para quê?

Ficar para trás … Elucidem-me: Em quê?

Nas conquistas? Nada daí advém que não um orgulho vaidoso. Sua semente jaz no leito de um eu egocêntrico prostrado aos pés de um narcisismo indolente. Há valores que se mantêm, sim, mas não são uma prioridade face ao reconhecimento das nossas capacidades. Estas são “o” comprovativo da nossa excepcionalidade. Vendo bem apenas comprovam o que, à partida, já sabíamos de antemão e que os outros não. Será obsessão esta nossa teima em querer que os outros nos vejam como nos vemos? Se reflectirmos um pouco veremos que isto é desejo ingrato. Tal seria apenas possível se os outros se provessem dos nossos olhos para o efeito.

Mais: de que outros falamos que não de nós mesmos? Nós somos parte integrante dos “outros” de alguém. Se me perco em mim mesmo tempo suficiente para não me perder em outrem, que justiça haverá no meu desejo pujante de que outro se perca em mim? É que se sou o outro de alguém, esse alguém também quererá que me perca nele. Frustro eu e frustra ele.

De volta ao início… Falemos de calma. Se pararmos nossa labuta e nos presentearmos com a oportunidade de nos perdermos em nós mesmos concerteza encontraremos no nosso íntimo a essência do nosso génio, a resposta aos problemas criados pela persistência da nossa índole. Não estuguemos o passo. Se dermos tempo à pegada para se formar, estaremos a firmar uma história. A capacitar-nos, imperceptivelmente, para a observação minuciosa e analítica do caminho. É nos dada a possibilidade e circunstância de aprender com ele. Aproveitai-a. É que o horizonte é indiferente ao ritmo que seguimos, ele só se prostra quando tiver de se prostrar. Portanto, desfaçamo-nos da pressa. Meditemos. Tal levarnos-à ao conhecimento do corpo e da mente como uno. A satisfação das suas necessidades dependerá inteiramente do nosso julgo. E quando este de algum outro advier, será tido como informação para reflexão e não como supressão de uma dada vontade ególatra.

Sejamos humildes. Aprendamos a mimar-nos para sermos exímios a perdermo-nos, a viver em, e não de.