Toda a gente vive em esferas.

Há uns que, por se sentirem sós, deixam entrar flechas não as deixando sair. A sua esfera começa a ficar soterrada até não conseguirem mais olhar para fora de suas paredes, até que mais nenhuma flecha consiga entrar a não ser que uma saia. E nenhuma sai.

Outros vivem em esferas transparentes e quase, quase, intransponíveis. Observam as flechas lá fora, a partir de dentro. E só quando uma, feita de um dado material especial, consegue atravessar as paredes é que lhe tocam, lhe sentem a superfície, a força, a suavidade, as rugas. Aí decidem se fica para ornamentar seu espaço ou se embora vai, de volta ao exterior.

Ainda existe outro tipo de gente cuja esfera é diferente, como a minha… Me conservo nela. Não saio dela. Vivo nela. Sento-me a observar as flechas que entram e saiem. Por vezes agarro numa ou noutra e as conservo por algum tempo mais se elas me captarem a atenção. E aí, estudo-as. E aí, depois de estudá-las, amo-as, porque já as adoro, como adoro todas as outras flechas. Todas essas outras flechas irremediavelmente são sugadas e expelidas incessantemente da minha esfera com uma aceleração variável dependendo da minha capacidade de concentração. Nenhuma fica, vai ficando.

Por isso te digo que és a pessoa mais culta que conheço mas nunca a mais inteligente.

Eu sou inteligente em parte, nunca culto. Sou inteligente na medida em que aprendo reflectindo, mas não conheço o nome do criador da ideia que gerou as ideias na minha cabeça. Dissequei a ideia de um homem de renome para criar ou completar ideias provindas da minha humilde cabeça. Tenho pena de não saber do que falas por vezes…. Concerteza expões conceitos com que estou familiarizada mas que deturpei com meu raciocínio. Expões conceitos de forma concisa tal qual foram apresentados ao mundo, tal qual me foram apresentados a mim. No entanto não me lembro da sua essência já que ela se perdeu na essência das minhas reflexões.

Perdoa-me. Por vezes as pessoas consideram ofensa estas coisas. Não é ofensa. É a minha visão das tuas peculariedades enquanto ser humano. Talvez se não fossem seres humanos como tu, livros como os que me caem em mãos nunca tivessem caído e, consequentemente, nenhum dos meus raciocionios tivesse ido avante. Por isso em parte te agradeço. A ti e aos teus antecessores que mesmo desconhecidos À tua pessoa te trouxeram até este contexto em que nos encontramos hoje; a esta conversa, a esta desabafo.

Na minha esfera o conhecimento vêm da curiosidade em dissecar e não da obsessão em coleccionar frases feitas, ou ateimar em vê-las à distância para não sofrer seus efeitos. É só isso. Nada mais que isso.