Em miúda ficava frustrada por não saber ler, ou contar. Um pouco mais graúda, lia muitas histórias, muitos livros.

Sempre tive o hábito de contar histórias às folhas. As minhas professoras adoravam. Depois, de manter diários que a minha irmã mais velha e mãe devoravam de um trago à procura de alguma clarividência sobre os meandros da minha adolescência.  Posteriormente tive o hábito de descrever tudo: sítios, pessoas, sentimentos, dúvidas. Sim, eu descrevia dúvidas.

Entretanto perdi o hábito afundada na labuta de ser Eu, das obrigações que me competiam, mas conservei sempre os cadernos. Na mala: sempre um caderno. Por vezes é cheio de rabiscos em 15 dias, por vezes fica vazio durante meses. Mas está lá! Isso é o mais importante: ele está lá.

De descrever dúvidas, passei a descrever reflexões. De descrever reflexões passei a descrever as minhas soluções. Na prática são minhas e de tantos outros, mas em teoria são apenas minhas, são fruto das horas sem dormir, sem falar, das horas passadas em transportes, à espera de transportes, à espera de pessoas. São, em bom português, fruto dos tempos ditos mortos, mas que nunca o foram.

Bem vindos ao mundo das folhas rasgadas dos tão afamados companheiros cadernos.

Convido-os a ter um. Porque não?

Advertisements