O meu avô…

O meu avô adora Matemática. Lia livros de um trago e dormia (c)em horas (talvez mais). O meu avô tem galinhas e uma horta. Passa o Natal connosco e joga trivial depois de muita insistência. O meu avô tem uma gata. A Beringela. E um pinheiro. Manso. Motivo de discussões. E vasos com morangos. O meu avô tinha uma mota e plantava batata doce. Cortava-me a carne aos bocadinhos e separava tudo em saquinhos. O meu avô joga no totoloto e gosta de ler os mexericos nas revistas.

Quando era pequena via os documentários da RTP 2 ao seu colo. Víamos os animais selvagens, os pequenos e os grandes. Quando era pequena ajudava o meu avô a descascar ervilhas. Sentávamo-nos no quintal em frente à porta de casa. Usávamos uma peneira. Quando era pequena víamos a Volta a França. E a Volta a Portugal. Ele tinha um mapa, vários até, e nós seguíamos com o dedo colado ao papel os caminhos que os atletas palmilhavam. Admirávamos a paisagem. Montanhas e montanhas. Vilas e aldeias. Ele gostava. Eu nunca percebi nada do desporto em si mas gostava também.

Tempos idos o meu avô ia visitar-me aos acampamentos de escuteiros. Eu tinha vergonha, então às vezes fingia que não o via. Não tinha vergonha dele. Tinha vergonha de mim. Os meus colegas excluíam-me das brincadeiras, das conversas e eu coloquei na cabeça provar-lhes que também eu merecia estar ali, que nada do que dissessem me iria esmorecer. Quando via o meu avô, essa submissão às provações revoltava-se. Queria ir-me embora. Sentar-me no banco de trás do seu carro e adormecer com a cabeça sobre a almofada, a nossa almofada, a almofada das netas.

O meu avô tinha o vício de se perder quando dávamos aqueles grandes, grandes passeios de carro. A minha avó ficava endemoninhada. Ele chama-a coxa. Ela olha-o zangada mas acaba sempre por lhe dar um beijinho. E rir-se um pouco. Sim. Eles amam-se. No presente. E depois outrossim. Ninguém disse que não podíamos amar quem não está presente tanto quanto amamos quem está.

Eu amo-o.

O meu avô gostava de ter tido uma educação e por isso lutou para que nós, filha e netas, a tivéssemos. Deu-me os seus manuais da EDP com descrições de circuitos eléctricos com um brilho nos olhos. Ainda me lembro da quantidade imensa de pó que eles traziam… Não sei onde os desencantou. Fez-me memorizar o nome de todos os reis de Portugal e saber de quem eram filhos e de quem eram pais. A lenda do pinhal de Leiria, e a do milagre das rosas das Caldas, eram constantes.

E a serra. Sim, a serra. Os piqueniques no Montejunto. O Baleal. Os acampamentos no Baleal, os banhos no Bom Sucesso e os gelados na Foz do Arelho. Lembro-me das últimas férias que passámos juntos na praia em que vocês dormiram no chão da varanda do apartamento porque não havia camas. Lembro-me de ter fechado a avó na casa de banho da rua e de ti, avô, a correres atrás de mim. Lembro-me das damas. Ganhavas-me quase sempre. E lembro-me de jogarmos às cartas e a avó te chamar velhaco.

Lembro-me sempre de ti. Todos os dias. E, se pudesse, mesmo que só um pouquinho, gostava de tirar-te essa dor que te oprime hoje. Partilhá-la, que fosse, contigo. .

O meu avô não é o meu melhor amigo. É o meu avô, na acepção da palavra e em sentido figurado. É um segundo pai que em tempos idos o foi a dobrar. Nesse tempo mal sabia eu o que eram doenças a sério. Daquelas que roubam ao tempo o próprio tempo. Daquelas que adormecem e quando abrem o olho galopam ou se arrastam sem qualquer previsão.

O meu avô chama-se Mapril e tem cancro. Outro. Outra vez.

Não sei se alguma vez disse em voz alta mas admiro os meus avós. Por muito que tenham sofrido, eu gostava de envelhecer ao lado da mesma pessoa anos sem fim e ser assim… como eles. Deus os proteja porque pela primeira vez sei o que significa ser impotente.

Desejo que um dia os meus filhos sejam tão felizes como eu fui com vocês, avós. Deram-me a melhor infância que uma criança podia ter.

Um beijo na ferida já não cura. Lembra-te apenas que não estás sozinho.

Orgulho-me em ser tua neta… meu querido avô.

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