Vivo de coração acelerado.

De coração acelerado de cada vez que as saudades apertam. De coração acelerado, de cada vez que dou um passo para trás, ou não dou sequer um para a frente, e te vejo assim, mais ao longe.

Sejamos sinceros, o teu toque está a ficar esbatido. O teu cheiro há muito já se foi. E a única coisa que ficou foi uma camisola tua, com um ponto de interrogação, que uso para dormir. Onde estás? O amor não é suposto dormir ao nosso lado?

Quando a sombra nos tira toda a luz, e não há resposta ou solução que não fechar os olhos e dormir com o assunto, sobre o assunto, fugindo do assunto, as palavras me fogem também, fica só o corpo. E quando falas para mim, o corpo não basta.

Entretanto vais falando, vais apalpando terreno, desbravando mato cerrado, sem mapa, nem bússola, nem bom augúrio. Vem aí tempestade. E tu remas tua barcaça para meu mar bravio, e no meio do temporal lanças a âncora e esperas. Quando as vagas colossais irrompem, eu viro o barco, há muito fustigado pela intempérie.

E enquanto te grito “Estou desesperada!”, me gritas “Amo-te incondicionalmente”! Isso mesmo: “Amo-te Incondicionalmente!”

Soluço de choro e de riso porque essa é a única forma que alguma vez achei digna de amar alguém. Por muito que se impinjam canudos, diplomas, certificados que validem habilitações, competências quem é aquele que se pode gabar de ser competente a amar? Ninguém é competente a amar. Ninguém é competente a ser amado. Que sentido farão as receitas de “Como fazer um homem (ou mulher) apaixonar-se por si em 10 dias?” se em cada relação os ingredientes à disposição são diferentes? Mais um pouco de sal, menos um pouco de sal não adianta quando a diferença está no ser doce, picante, ácido…

“Amo-te incondicionalmente!”

Todas as perguntas começadas por “E se eu não conseguir…” , “E se eu não for…” aprendem a andar em dois segundos, a correr em três, e a fugir em menos de um porque ele me ama incondicionalmente, e posto isto, nada disso importa.

A única coisa que ele não entende é que o barco era meu. E foi dilacerado. E eu como capitão de navio preciso de fazer o luto. Mesmo que, no futuro, vá fazer de minha casa um outro barco em que não haja capitães, mas uma tripulação composta por dois, nós os dois.

Mas aí está. Não faz mal se o oceano vence, se a chuva, as rajadas de vento e as os trovões ganham terreno aos nossos sonhos. Se há coisa que teima em não ficar no leque das coisas que temos é o controlo dessas e das outras: as que não temos, e as que nos impingem que sejamos e que não somos. No fundo, tu rodas o leme à direita, eu à esquerda… é tudo uma questão de discernimento, as habilitações vêm por acréscimo… na nossa cabeça. E se o fim do mundo bater à porta, se algures vir o Adamastor assomar no horizonte, és tu quem eu quero na minha equipa.

Porque eu também sei do que és capaz sem que me dês provas da tua destreza.

Só assim faria sentido “Amar-te incondicionalmente”.

Só assim faz.

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