Dormes a meu lado, tão calmo… Se estas paredes ruissem, se este telhado desabasse, se estas janelas quebrassem tão impetuosamente como meu coração crepita com o fogo que ateaste nele… acordarias?

Teimo em ficar assim… aninhada em ti. Delicadamente passeando meus dedos em tua face… dando pequenos beijos repenicados. Não te fazem cócegas? Não te despertam a sensação de etéreo? A indolência do teu sono me fascina. Viajas. Para onde viajas? Enquanto meu espaço se queda, teu se faz à estrada. Encontrar-me-ei aí, onde teu consciente finda?

Ajeito o lençol. Te aconchego, te mimo, te estimo… Sorrio. Te observo, te fito, te guardo… Rio. Te desejo, te adoro. Te adoro como se adora a um deus.

E acordas para meu deleite. Me pegas. Me enlaças docemente. Contrais-te. Apertas-me. Atrais-me. Com ímpeto. E páras no limbo, àquela distância diminuta em que já não sabemos onde começa e acaba nosso corpo, onde começa e acaba nossa alma. Em que a desorientação impera, e um singelo toque se dissemina explodindo pelo mais profundo íntimo de nós.

Deixas cair teu corpo sobre mim. Sou pequenina a teu lado. Olhos nos olhos, me afundo na consciência de saber que tenho o mundo aos pés, à procura de palavras que te revelem o que meus olhos me revelam quando te admiram, a ti.

Se voltares, volta para mim. Volta para o meu colo, deixa-me desligar-te o despertador e, ao invés, te acordar com uma  festa ao de leve no cabelo, um beijinho sorrateiro, um piscar de olho matreiro, um doce “adoro-te” sussurrado logo pela manhã. Preparar-te o almoço, fazê-lo com todo o carinho que me cabe te dar.

Passamos horas a tentar dar nomes a coisas que ainda não são nomeáveis. Não nasceram para ser nomeáveis. São coisas de louco. Por agora são coisas de louco. E não tem mal. Porque é bom. Uma vez li que “o amor vem depois”, “o amor é o que fica”. E foi amor que ficou… E é amor que vai ficando.

Tens o dom de me deixar sem palavras. É como se tudo o que dizes roubasse o romance a tudo o que penso. É como se todo o meu vocabulário não fizesse jus à torrente de emoções que se formou e avolumou sem dar cavaco a ninguém, sem hora, nem porquê.

Tens o dom de me fazer gostar de mim. Tens o dom de olhar coração a dentro. Tens o dom de saber o que dizer, quando dizer. Tens o dom de estar presente, quando não estás, de te fazeres sentir perto, quando meio mundo nos separa.

E dizes o que dizes, falas o que falas, pensas o que pensas, fazes o que fazes, és o que és e não és eu, não te confundes com o que sou, não me deixando confundir-me com o que és. E assim me fazes saber que somos de perfeito encaixe, perfeita simbiose.

Tenho raízes. E nenhum chão debaixo dos pés.

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